O FUNDO DO POÇO NO REINO ENCANTADO

Eu vivi o suficiente para conhecer a cura para a morte; para ver a ascensão da Sociedade Bitchun, para aprender dez línguas; para compor três sinfonias, para realizar o sonho da minha infância e morar no Disney World; para ver o fim dos empregos fixos e do trabalho.

Nunca pensei que viveria para ver o dia em que Dan, o Incansável, decidiria entrar em inconsciência até que o Universo acabasse.

Dan estava em sua segunda ou terceira juventude quando o encontrei pela primeira vez, em algum ponto do fim do XXI. Ele parecia um caubói, viril, aparente-25 ou perto disso, algumas linhas no rosto, o pescoço queimado de sol, botas bastante usadas e infinitamente confortáveis. Eu estava no meio da minha tese em Química, meu quarto doutorado, e ele tirava umas férias de sua função de Salvar o Mundo, esfriando a cabeça no campus da Universidade de Toronto, aporrinhando um dos alunos do curso de antropologia. Nos conhecemos na Grad Students' Union [Grêmio dos Estudantes de Graduação] – a GSU, ou Gazoo para os iniciados – em uma sexta-feira concorrida, recendendo a primavera. Eu tentava, com a mesma rapidez de uma lesma, conseguir um banco em frente ao comprido balcão, chegando centímetros à frente cada vez que a massa de corpos se mexia, e ele estava sentado, cercado por um mar de tocos de cigarros e copos vazios, claramente sentindo-se em casa.

Depois de certo tempo, enquanto eu ainda tentava conseguir um banco, ele virou a cabeça na minha direção e arqueou uma sobrancelha clareada pelo sol. “Se você chegar mais perto, filho, teremos que fazer um acordo pré-nupcial.”

Eu estava aparente-40 ou perto disso, e pensei em me mostrar irritado ao ser chamado de “filho”, mas olhei diretamente em seus olhos e decidi que ele já havia vivido o bastante para me chamar de “filho” quando quisesse. Eu me afastei um pouco, e pedi desculpas.

Ele apagou um cigarro e soprou forte a fumaça fedorenta por sobre a cabeça do barman. “Não se preocupe. Provavelmente estou habituado demais a ter meu próprio espaço.”

Não consegui me lembrar da última vez em que ouvira alguém no mundo real falar sobre “espaço próprio”. Com a taxa de mortalidade em zero e a taxa de natalidade em não-zero, o mundo inexoravelmente se tornava um mar de gente, mesmo com as eventuais entradas em inconsciência, estáticas ou não. “Você passa muito tempo viajando?” perguntei – seus olhos eram vivos demais para alguém que tivesse escolhido perder qualquer tipo de experiência para entrar em inconsciência.

Ele riu. “Não, senhor, não eu. Eu gosto mesmo é desse tipo de macheza idiota que você só encontra se viver no mundo real. Pular de um lado para o outro é coisa de criança; eu preciso trabalhar.” O copo soou em contradição.

Levei um instante para chamar meu HUD 1 e ver quantos Whuffies ele possuía. Tive que alterar o tamanho da janela – eram mais zeros do que o display -padrão permitia. Tentei agir como se aquilo não fosse nada, mas ele percebeu quando meus olhos rapidamente se viraram para cima, e também quando eles involuntariamente se arregalaram. Ele tentou parecer modesto, mas desistiu e deixou-se abrir em um largo sorriso.

“Eu tento não ligar muito para isso. Algumas pessoas são agradecidas demais.” Ele deve ter visto meus olhos se virarem para cima novamente, para puxar seu histórico de Whuffies. “Espere, não é preciso... eu lhe conto, se você realmente quiser saber.

“Sabe, é muito fácil se acostumar a uma vida sem hyperlinks . Seria de se esperar que sentíssemos a falta deles, mas não é isso o que acontece.”

E então eu entendi tudo. Ele era um missionário – uma daquelas pessoas que atuam junto às margens da sociedade, e agem como emissários da Sociedade Bitchun nos cantos esquecidos do mundo, onde, por quaisquer razões, as pessoas desejam morrer, passar fome e se intoxicar com dejetos petroquímicos. É incrível como estas comunidades sobrevivem por mais de uma geração; na Sociedade Bitchun propriamente dita, geralmente vivemos mais do que nossos detratores. Os missionários não têm uma taxa de sucesso tão alta – é preciso ser terrivelmente convincente para penetrar em culturas que há quase um século resistem ao bombardeamento propagandista –, mas, quando uma aldeia inteira é convertida, é o missionário quem leva os Whuffies que eles têm para dar. É muito comum, depois de uma década de trabalho e isolamento, os missionários utilizarem um backup anterior para recomeçar a viver. Até então, eu não conhecera um missionário em carne e osso.

“Você tem muito sucesso em suas missões?” eu perguntei.

“Então você percebeu, hein? Acabo de voltar da minha quinta missão em vinte anos – contra-revolucionários escondidos na velha sede do Centro de Defesa Aero-Espacial, em Cheyenne Mountain. Ainda estavam lá, mesmo uma geração depois.” Lixou o começo de barba com as unhas. “A primeira geração acabou depois que tudo o que eles tinham guardado durante a vida virou pó; a segunda geração não tinha uso para tecnologias maiores do as usadas em um rifle. E o que não faltava por lá eram rifles.”

Ele então começou a me contar sobre como ele gradativamente fora aceito entre os habitantes das montanhas, ganhara sua confiança, e depois os traíra de maneira sutil e benéfica: introduzindo Energia Livre em suas estufas, uma ou outra plantação geneticamente modificada, e finalmente curando uma morte aqui, outra ali, fazendo com que os montanhistas pouco a pouco entrassem no mundo da Sociedade Bitchun, até que não pudessem mais lembrar porque não queriam fazer parte dela inicialmente. Os habitantes da aldeia finalmente começaram a viver fora do mundo real, explorando máquinas que utilizavam energia e suprimentos sem limites, entrando em inconsciência nas épocas mais maçantes.

“Acho que seria um choque muito grande se eles continuassem no mundo real. Eles pensam em nós como o inimigo – tinham vários planos e esquemas para quando os invadíssemos e os seqüestrássemos; dentes ocos para colocar veneno, armadilhas, pontos de encontro para os sobreviventes. Eles não conseguem deixar de nos odiar, embora nem saibamos que eles existem. Fora do mundo real, eles podem continuar fingindo que ainda vivem à moda antiga, dura, difícil.” Coçou o queixo novamente, os calos duros dos dedos roçando o começo da barba. “Mas, para mim, a vida dura acontece aqui mesmo, no mundo real. Estes pequenos enclaves... cada um deles é como uma história alternativa da humanidade – e se usássemos a Energia Livre, mas não a entrada em inconsciência? E se usássemos a entrada em inconsciência somente para os doentes terminais, mas não para aqueles que não têm paciência de agüentar longas viagens de ônibus? E se não houvesse hyperlinks , se não houvesse as cooperativas, se não houvesse Whuffie? Todas as possibilidades são diferentes, e maravilhosas.”

Eu tenho o costume idiota de discutir apenas pelo prazer da discussão, e me vi dizendo, “Maravilhosas? Ah, é claro, nada pode ser melhor do que, vejamos... morrer, passar fome, passar frio, passar calor, assassinatos, crueldade e ignorância, dor e miséria. Eu certamente sinto falta de tudo isso.”

Dan, o Incansável, fez um muxoxo. “Você acha que um viciado sente falta de estar sóbrio?”

Dei um tapa no balcão. “Ora! Não existem mais viciados!”

Ele acendeu outro cigarro. “Mas você sabe o que é um viciado, certo? Os viciados não sentem falta de estarem sóbrios porque não se lembram de como tudo era correto, de como a dor faz a alegria ser mais doce. Não conseguimos nos lembrar de como era trabalhar para ganhar o sustento; de nos preocupar porque talvez aquilo não fosse o suficiente , de que talvez ficássemos doentes, ou fôssemos atropelados por um ônibus. Não nos lembramos de como era fazer algo arriscado e, porra, não nos lembramos de como nos sentíamos quando o risco, ao final, valera a pena.”

Ele tinha uma certa razão. E lá estava eu, apenas na minha segunda ou terceira maturidade, pronto para fazer com que todo o meu esforço se transformasse em alguma coisa , qualquer coisa diferente. Ele tinha uma certa razão – mas isso eu não admitiria. “É o que você diz. O que eu digo é: eu me arrisco quando tenho uma conversa, quando me apaixono... E quanto aos que entram em inconsciência? Duas pessoas que conheço entraram em inconsciência por dez mil anos! E você me diz que isso não é se arriscar!” Para dizer a verdade, todos os que eu conhecera ao longo dos meus oitenta e poucos anos haviam entrado em inconsciência, ou estavam viajando por aí, ou haviam apenas desaparecido . Era uma época solitária.

“Cara, isso é praticamente como cometer suicídio. Do jeito que vamos, essas pessoas já terão sorte se ninguém desligar os aparelhos quando chegar a hora de reanimá-los. Se você não reparou, o mundo está ficando um pouco lotado demais.”

Fiz uns ruídos de quem não concorda e passei um guardanapo pela testa – a Gazoo era incrivelmente quente naquelas noites de verão. “Claro, assim como o mundo estava se tornando um pouco lotado demais há cem anos, antes da Energia Livre. Conseguimos consertar as coisas naquela época, conseguiremos consertá-las novamente quando for preciso. Eu estarei por perto daqui a dez mil anos, pode apostar, mas acho que vou fazer a viagem mais comprida.”

Ele inclinou a cabeça novamente, pensando no assunto. Se fosse qualquer um dos outros estudantes de graduação, eu teria achado que ele apenas tentava encontrar novos fatos que apoiassem seu próximo argumento. Mas, sendo Dan, eu sabia que ele estava realmente pensando no que eu dissera, à moda antiga.

“Acho que se eu ainda estiver por perto daqui a dez mil anos, terei ficado completamente louco. Dez mil anos, colega! Há dez mil anos, a melhor coisa do mundo era ser um maníaco sexual. Você realmente acha que será algo remotamente parecido com um ser humano daqui a cem séculos? Eu não estou interessado em ser uma pós-pessoa. Um dia desses vou acordar e dizer, ‘Bem, acho que já vi o bastante', e este será o meu último dia”.

Eu sabia onde ele queria chegar, e tinha parado de prestar atenção enquanto aprontava minha resposta. Provavelmente deveria ter prestado mais atenção. “Mas por quê? Por que não apenas entrar em inconsciência por uns séculos, ver se você se empolga com alguma coisa e, se isso não acontecer, voltar a dormir por mais um pouco? Por que fazer algo tão final ?”

Ele me constrangeu ao fingir pensar mais um pouco sobre a questão, fazendo-me sentir como se eu fosse uma besta quadrada. “Suponho que nada seja mais final do que isso. Eu sempre soube que, um dia, eu iria parar de me mover, parar de procurar, parar de me debater, e acabar. Vai chegar o dia em que eu não terei mais nada a fazer, a não ser parar.”

 

***

 

No campus, chamavam-no de Dan, o Incansável, por causa do seu ar de caubói, por causa do seu estilo de vida e, de algum jeito, ele se tornou o assunto de todas as conversas das quais participei nos seis meses seguintes. Eu puxava sua contagem Whuffie algumas vezes, e notava que ela subia constantemente enquanto ele acumulava estima das pessoas que conhecia.

Eu praticamente mijei minhas economias-Whuffie – tudo o que eu guardara das sinfonias e das três primeiras teses – bebendo como um imbecil na Gazoo, excedendo meu tempo nos terminais da biblioteca, enchendo o saco dos professores, até que eu havia gastado todo o respeito que qualquer pessoa me devia. Todos menos Dan, que, por algum motivo, ainda me acompanhava nas cervejas, refeições e filmes.

Comecei a me sentir especial – nem todos possuíam um amigo tão exótico quanto Dan, o Incansável, o lendário missionário que havia visitado as últimas partes do mundo ainda fechadas à Sociedade Bitchun. Não sei dizer ao certo por que ele continuava comigo. Algumas vezes ele mencionou que apreciava minhas sinfonias, e que lera e gostara da minha tese sobre Ergonomia relacionada à aplicação de técnicas de controle de população em parques temáticos e perímetros urbanos. Mas acho que, no fundo, era apenas por causa da satisfação de passarmos horas agradáveis nos provocando.

Eu perguntava a ele sobre o vasto futuro que se desenrolava à nossa frente, sobre a certeza de que encontraríamos inteligências alienígenas, sobre inimagináveis fronteiras abertas a cada um de nós. Ele me dizia que entrar em inconsciência era um forte indicador de que a reserva pessoal de criatividade e introspecção de cada um estava no final; e que, sem esforço, não existe uma vitória verdadeira.

Era uma boa disputa, que poderíamos ter repetido mil vezes sem que se chegasse a uma conclusão. Eu fiz com que ele admitisse que o sistema Whuffie recapturara a verdadeira essência do dinheiro: nos velhos tempos, se você fosse respeitado mas estivesse falido, não passaria fome; se, ao contrário, fosse rico e odiado, dinheiro algum poderia comprar segurança e paz. Ao medir aquilo que o dinheiro realmente representa – o capital pessoal que você possui em relação a seus amigos e vizinhos -, é possível saber acertadamente a medida do sucesso de cada um.

E ele me levara por um sutil caminho, fazendo-me morder a isca e admitir que, sim, talvez fosse possível que no futuro encontrássemos espécies alienígenas fabulosas, mas que no presente momento o mundo era depressivamente homogêneo.

 Num belo dia de primavera, defendi minha tese perante dois humanos de corpo presente e um professor cujo corpo se encontrava no conserto, mas cuja consciência estava presente via tele-conferência com o computador ao qual ela estava conectada, descansando. Os três gostaram. Recolhi meus pertences e saí à caça de Dan pelas ruas recendendo ao doce cheiro das flores.

Ele havia sumido. O estudante de antropologia que ele torturara com histórias de guerra disse que sua pesquisa conjunta havia terminado naquela manhã, e que Dan havia ido para a cidade-fortaleza de Tijuana, para tentar a sorte com os descendentes de um pelotão de fuzileiros navais que ali haviam se instalado, longe da Sociedade Bitchun.

Então eu fui ao Disney World.

Em deferência a Dan, fiz o vôo em tempo real, na minúscula cabine reservada àqueles que teimosamente se recusavam a ser congelados e armazenados como lenha durante as duas horas de vôo. Eu era a única pessoa voando em tempo real, mas uma das comissárias, fazendo jus ao salário que ganhava, me serviu uma amostra-grátis de suco de laranja e uma omelete de queijo borrachuda e fedorenta. Eu olhei pelas janelas, para a infinidade de nuvens, enquanto o piloto-automático desviava das turbulências, e me perguntei quando veria Dan novamente.

Minha namorada tinha 15 por cento da minha idade, e eu era antiquado o suficiente para que isso me incomodasse. Seu nome era Lil, e ela era segunda-geração Disney, pois seus pais faziam parte da primeira cooperativa a administrar a Praça da Liberdade e a Ilha do Tom Sawyer. Ela fora, literalmente, criada no Walt Disney World, e qualquer um podia perceber.

Qualquer um podia perceber. Ela era organizada e eficiente em todas as pequenas coisas que se referiam a ela, do reluzente cabelo ruivo à contagem de cada engrenagem ou bugiganga dos robôs animados que eram sua responsabilidade. Seus pais tinham decidido entrar em inconsciência por alguns séculos, e agora se encontravam em sarcófagos em Kissimmee.

Durante uma quarta-feira úmida, à luz da lua, nos encontrávamos com os pés balançando para fora do píer do barco Liberty Belle, observando as incontáveis bandeiras confederadas do Forte Langhorn, na Ilha do Tom Sawyer. O Reino Encantado tinha sido fechado, até o último visitante retirado do parque pelo portão sob a estação de trem da Rua Principal, e podíamos suspirar com alívio, retirar as fantasias e relaxar ao som da música das cigarras.

Eu tinha mais de um século de idade, mas ainda havia certa magia no ato de colocar meu braço ao redor dos belos ombros calorosos de uma garota sob a luz do luar enquanto respirava o ar úmido e quente, fora das vistas e longe do barulho das equipes de limpeza nas catracas. Lil recostou a cabeça no meu peito e me deu um leve beijo na parte de baixo do queixo.

“O nome dela era McGill,” eu cantei, gentilmente.

“Mas ela gostava que a chamassem de Lil,” ela cantou, a respiração quente nas minhas omoplatas.

“E todos a conheciam como Nancy,” 2 cantei.

 Eu ficara impressionado com o fato de que ela conhecia os Beatles. Afinal, eles já eram antigos na minha juventude. Mas seus pais a tinham educado de maneira bastante completa – embora eclética.

“Quer dar um passeio?” ela perguntou. Era uma de suas tarefas favoritas, explorar, com as luzes acesas, cada centímetro das atrações pelas quais era responsável, depois que as hordas de turistas eram retiradas do parque. Gostávamos de ver os bastidores da magia. Talvez fosse por isso que eu me importasse tanto com nossa relação.

“Estou um pouco cansado. Vamos continuar aqui, se não se importar.”

Ela suspirou dramaticamente. “Oh, está bem. Seu velhote.” Ela se inclinou e gentilmente me beliscou no mamilo, e eu pulei, satisfeito. Acho que a diferença de idades também a incomodava, embora ela me provocasse porque eu me importava.

“Acho que consigo dar uma volta pela Mansão Assombrada, se você der um momento para que eu me recupere da bursite.” Senti sua mão na minha camisa. Ela adorava a Mansão; adorava ligar os fantasmas do salão de bailes e dançar com eles uma valsa sobre o chão empoeirado, adorava acompanhar os olhares dos bustos de mármore da biblioteca que encaravam de volta quando a gente passava.

Eu também gostava, mas, na verdade, o que eu mais gostava era de estar ali sentado com ela, olhando a água e as árvores. Eu estava pronto para me levantar quando ouvi um leve ping em minha cóclea. “Droga,” eu disse, “tenho que atender uma chamada.”

“Diga que está ocupado,” pediu ela.

“É o que vou fazer,” eu disse, e respondi sub-vocalmente. “Julius falando.”

“Olá, Julius. É o Dan. Tem um minuto?”

Eu conhecia vários Dans, mas reconheci aquela voz imediatamente, embora já se fossem mais de dez anos desde a última vez em que havíamos enchido a cara na Gazoo. Eu tirei o som do sub-vocal e disse, “Lil, preciso atender essa chamada. Você se importa?”

“Oh, não , de jeito nenhum,” ela me disse com sarcasmo. Ela voltou a se sentar e acendeu seu cachimbo de crack .

“Dan,” eu sub-vocalizei, “faz tempo que não nos falamos.”

“É, amigão, faz tempo mesmo,” disse ele, e as palavras se transformaram em um soluço.

 Eu me voltei para Lil e lhe dei um tal olhar que ela tirou o cachimbo da boca. “Posso ajudar?” disse ela, de maneira suave mas prestativa. Eu fiz um gesto e troquei o fone para o modo alto-falante. Minha voz soava alta, pouco natural na calmaria que se seguiu ao silêncio das cigarras.

“Onde você está, Dan?” eu perguntei.

“Aqui em Orlando. Estou preso na Ilha da Fantasia.”

“Certo,” eu disse. “Encontre-me no, hum, no Clube dos Aventureiros, segundo andar, no sofá perto da porta. Estarei lá em...” olhei para Lil, que conhecia os caminhos exclusivos para figurantes melhor do que eu. Ela me mostrou dez dedos. “Dez minutos.”

 “Ótimo,” ele disse. “Me desculpe.” Sua voz parecia novamente sob controle. Desliguei.

“O que aconteceu?” Lil perguntou.

“Não sei ao certo. Um velho amigo veio me fazer uma visita. Parece que está com problemas.”

Lil apontou-me um dedo e fez um gesto como quem aperta um gatilho. “Pronto,” ela disse. “Acabei de carregar o melhor caminho para a Ilha da Fantasia em seu arquivo público. Mantenha-me informada, está bem?”

Segui a caminho da entrada do corredor de serviço mais próximo do Salão dos Presidentes e desci as escadas em direção ao ruído constante do sistema de túneis subterrâneos. Peguei a esteira rolante até o estacionamento e rodei no meu carrinho até a Ilha da Fantasia.

 

***

 

Encontrei Dan sentado no sofá em forma de L sob a fileira de troféus de caça falsos, cada um com uma legenda espirituosa. Lá embaixo, figurantes usavam máscaras de ídolos e robôs animados conversavam com os visitantes.

Dan estava aparente-50 ou mais, ligeiramente barrigudo e com a barba por fazer. Estava com bolsas escuras sob os olhos e seu ar era decadente, desanimado. Quando me aproximei, puxei sua contagem Whuffie, e fiquei alarmado ao ver que despencara para perto de zero.

“Meu Deus,” eu disse, enquanto me sentava a seu lado. “Você está horrível, Dan.”

Ele concordou. “As aparências enganam,” ele disse. “Mas no meu caso elas não poderiam ser mais verdadeiras.”

“Quer conversar sobre o que aconteceu?” perguntei.

“Em algum outro lugar, está bem? Ouvi dizer que esse pessoal faz uma festa de Ano Novo todas as meias-noites; acho que seria demais para mim no momento.”

Dan me seguiu até o carrinho e voltamos para a casa que eu dividia com Lil, em Kissimmee. Ele fumou oito cigarros durante a viagem de vinte minutos, acendendo um atrás do outro, enchendo o veículo de nuvens fedorentas. Eu olhava continuamente para ele pelo espelho retrovisor. Ele fechara os olhos, e em repouso tinha a aparência de um cadáver. Parecia difícil acreditar que aquele era meu vibrante herói de antigamente.

 Discretamente, chamei o telefone de Lil. “Estou levando-o para casa,” sub-vocalizei. “Ele parece bastante mal. Não sei bem o porquê.”

“Vou aprontar o sofá,” disse ela. “E um café também. Amo você.”

“Eu também amo você, garota,” eu disse.

Quando nos aproximamos do pequeno e desgastado chalé, ele abriu os olhos. “Você é um bom amigo, Jules.” Eu fiz um gesto, querendo dizer que aquilo não era nada. “Não, de verdade. Tentei pensar em alguém para ligar, e só me lembrei de você. Senti sua falta, amigo.”

“Lil disse que prepararia um café,” eu disse. “Parece que é justamente do que você precisa.”

Lil estava sentada no sofá, com um travesseiro e uma manta dobrada sobre a mesinha de canto, ao lado de um bule de café e de umas xícaras com motivos da Disney Pequim. Ela se levantou e estendeu a mão para Dan. “Sou Lil,” disse ela.

“Dan,” disse ele. “Prazer.”

Eu sabia que ela estava puxando a contagem Whuffie dele, e percebi seu olhar de surpresa e desaprovação. Nós, veteranos nascidos antes da era Whuffie, sabemos o quanto isso é importante; mas, para a geração mais nova, significa tudo . Alguém sem Whuffies torna-se automaticamente suspeito. Observei-a voltar ao normal rapidamente, sorrindo e discretamente limpando as mãos nas calças. “Café?” perguntou ela.

“Oh, sim,” disse Dan, e desabou no sofá.

Ela encheu uma xícara e a colocou sobre um aparador na mesinha. “Vou deixar vocês conversarem,” disse ela, e levantou-se para ir até o quarto.

“Não,” disse Dan. “Espere. Se não se importa, acho que seria bom se eu pudesse falar com alguém mais... jovem, também.”

A expressão no rosto de Lil era a de um feliz desejo de ajudar, expressão que toda a segunda geração de figurantes é capaz de mostrar quando necessário; ela voltou a se sentar na poltrona. Tirou o cachimbo do bolso e acendeu uma pedrinha. Eu passei pelo período do crack antes de ela nascer, antes que inventassem o crack descafeinado, e sempre me sentia velho quando ela e seus amigos acendiam os cachimbos. Dan me surpreendeu ao esticar sua mão e pedir o cachimbo. Ele tragou profundamente, depois o devolveu.

 Dan fechou os olhos novamente, depois apertou os punhos contra os olhos, e então bebeu o café. Ele claramente procurava por onde começar a contar sua história.

“Eu acreditava ser mais corajoso do que realmente era, esse é o xis da questão,” disse ele.

“E quem não acredita?” perguntei.

“Eu achei que conseguiria. Sabia que, um dia desses, não haveria mais nada para fazer, nada para ver. Eu sabia que um dia estaria tudo acabado. Você se lembra, nós discutíamos sobre isso. Eu jurei que poria um ponto final. E foi o que fiz. Não há um único lugar no mundo real que não faça parte da Sociedade Bitchun. Não há uma única coisa da qual eu queira fazer parte.”

“Pois então entre em inconsciência por uns séculos,” eu disse. “Adie a decisão”.

“Não!” gritou ele, assustando a mim e a Lil. “Estou acabado . Ponto final .”

“Então acabe logo com isso,” disse Lil.

“Não consigo ,” ele soluçou, afundando a cara nas mãos. Dan chorou como uma criança, em longos soluços anasalados que o faziam tremer inteiro. Lil foi até a cozinha, voltou com lenços de papel, e os entregou a mim. Eu me sentei ao lado de Dan e, constrangido, dei tapinhas em suas costas.

“Meu Deus,” disse ele para as palmas de suas mãos. “Meu Deus.”

“Dan?” perguntei num sussurro.

Ele endireitou o corpo e pegou o lenço; limpou o rosto e as mãos. “Obrigado,” disse. “Eu tentei arrumar um jeito de ficar contente com a decisão, tentei de verdade. Passei os últimos oito anos em Istambul, escrevendo relatórios sobre as minhas missões, sobre as comunidades. Fiz alguns cursos e entrevistas complementares. Ninguém se interessou. Nem eu mesmo. Fumei muito haxixe. Não ajudou. Então, uma manhã eu acordei, fui até o bazar e disse adeus aos amigos que fizera por lá. Depois fui a uma farmácia e pedi ao cara que me preparasse uma injeção letal. Ele me desejou boa sorte, eu voltei para meu quarto. Fiquei lá, com a injeção hipodérmica, a tarde inteira, depois decidi pensar melhor até a manhã seguinte; quando acordei, passei pelo processo inteiro novamente. Olhei para dentro de mim mesmo e vi que não tinha coragem. Não tinha coragem, só isso. Já me puseram uma arma na cara centenas de vezes, tive centenas de facas contra minha garganta, mas não tive coragem de apertar o êmbolo.”

“Você está atrasado,” disse Lil.

Nós dois nos viramos para olhar para ela.

“Você está uma década atrasado. Olhe para você. É patético. Se você se matasse agora, seria apenas um derrotado, sem forças para lutar. Se tivesse feito há dez anos o que quer fazer agora, teria saído por cima – um campeão se aposentando permanentemente.” Ela pousou a xícara na mesa com mais força do que o necessário.

Às vezes, Lil e eu pensamos da mesma maneira. Outras vezes, é como se ela vivesse em outro planeta. Tudo o que pude fazer foi continuar sentado, horrorizado, enquanto ela parecia feliz em discutir o tempo certo para o suicídio do meu amigo.

Mas ela estava certa. Dan sacudiu a cabeça pesadamente, e eu percebi que ele também sabia que ela estava certa.

“O lugar errado e a hora errada,” suspirou ele.

“Bem, não fique aí sentado,” disse ela. “Você sabe o que tem de fazer.”

“O quê?” eu disse, involuntariamente irritado com o tom de voz dela.

Ela me olhou como seu eu estive sendo estúpido de propósito. “Ele tem que voltar a ficar por cima. Sóbrio, focado em algum trabalho produtivo. Aumentar a contagem Whuffie também. Só então ele poderá se matar com dignidade.”

Era a coisa mais idiota que eu jamais escutara. No entanto, Dan levantara uma sobrancelha e parecia pensar com afinco. “Quantos anos você disse que tem?”

“Vinte e três,” disse ela.

“Gostaria de ter sido tão inteligente quanto você, quando eu tinha sua idade,” disse ele, suspirando pesadamente e se empertigando. “Posso ficar por aqui enquanto não consigo dar a volta por cima?”

Olhei de lado para Lil, que pensou por um momento, depois assentiu.

“Claro, cara, claro,” eu disse. Dei um tapinha em seu ombro. “Você parece cansado.”

“Se fosse apenas cansaço...,” disse ele.

“Boa noite, então,” eu disse. 

 As cooperativas funcionam bem, na maior parte do tempo. Os pais de Lil haviam tomado a administração da Praça da Liberdade junto com um grupo de pessoas com os mesmos interesses e pensamentos. Fizeram um ótimo trabalho, levantaram montes de Whuffie, e qualquer um que tentasse tomar a administração das mãos deles seria tão vilipendiado pelos visitantes que teria sorte em arranjar sequer um penico para mijar. Ou então teria uma visão tão distorcida e radical de como fazer o trabalho que conseguiria expulsar os pais de Lil e seus cooperados e depois fazer uma administração melhor.

O que eventualmente pode acontecer. Havia pretendentes ao trono – um grupo de pessoas que havia trabalhado com a cooperativa original e depois se mudara em busca de novos horizontes – alguns deles haviam voltado para a escola, outros haviam feito filmes, escrito livros, ou ido para a Disneyland Pequim para ajudar a dar início ao Parque de lá. Outros, poucos, haviam entrado em inconsciência por algumas décadas.

 Essa gente voltou à Praça da Liberdade com a seguinte mensagem: melhorem as atrações. A cooperativa da Praça da Liberdade era a de pensamento conservador mais ferrenho em todo o Reino Encantado, preservando tecnologias antiquadas frente a um Parque que se transformava a cada dia. Novos cooperados e novas cooperativas sempre chegavam com idéias revolucionárias, conseguiam o apoio do Parque e talvez conseguissem a administração das áreas mais conservadoras.

Portanto, era responsabilidade de Lil fazer com que não houvesse problemas nas poucas atrações da Praça da Liberdade: o Salão dos Presidentes, o barco-fluvial Liberty Belle e a gloriosa Mansão Assombrada, talvez a atração mais bacana inventada pelo antigo time de Criadores da Disney.

 Encontrei-a nos bastidores do Salão dos Presidentes, mexendo em um Lincoln II, o robô-animado reserva. Lil sempre tentava manter dois exemplares de todos os bonecos preparados para entrar em ação, caso algo desse errado. Ela era capaz de trocar um eventual robô quebrado por um reserva em menos de cinco minutos, tempo máximo permitido pelos procedimentos de controle de população.

Dan havia chegado há duas semanas e, embora eu pouco o tivesse visto durante este período, sua presença era bastante sentida em nossas vidas. Nosso pequeno chalé adquirira um novo e agradável cheiro de juventude, esperança e perda, que quase passava despercebido sob o aroma das flores tropicais da varanda da frente. Meu telefone tocava três ou quatro vezes por dia: era Dan avisando que chegara das voltas que dava pelo Parque, procurando meios de acumular capital pessoal. Seu entusiasmo e dedicação à tarefa eram inspiradores, fazendo com que eu compartilhasse seu alegre e despreocupado modo de viver.

“Dan acabou de sair,” disse Lil. Ela tinha a cabeça dentro do peito do Lincoln, trabalhando com uma auto-solda e uma lente de aumento. Recurvada, os cabelos vermelhos bem amarrados na nuca, suor brilhando nos braços fortes e cheios de sardas, cheirando a lubrificante mecânico e a suor feminino, ela me fez desejar que houvesse um colchão em algum lugar ali atrás. Contentei-me em dar um tapinha carinhoso em seu traseiro, e ela se mexeu levemente, satisfeita. “Ele parece bem melhor.”

 O rejuvenescimento pelo qual Dan havia passado fizera com que ele ficasse aparente-25, bem como eu me lembrava dele. Estava magro e curtido, mas ainda portava o andar envelhecido e derrotado que me assustara quando o encontrara no Clube dos Aventureiros. “O que ele queria?”

“Ele tem passado muito tempo com Debra – e queria que eu soubesse o que ela anda aprontando.”

Debra era da velha-guarda, uma antiga companheira dos pais de Lil. Ela passara uma década na Disneyland Pequim, criando códigos de atrações de simulação. Se ela tomasse conta do negócio, o Parque se transformaria em nada mais do que robôs e caixas de simulação gigantes.

O problema era que ela era realmente boa no que fazia, ou seja, criar códigos de simulação. O recondicionamento que ela produzira na Great Movie Ride da MGM era espetacular – a seqüência de Guerra nas Estrelas havia inspirado a criação de centenas de sites acessados por milhões de fãs.

O sucesso de Debra fizera com que ela conseguisse um acordo com as cooperativas da Terra da Aventura para recondicionar os Piratas do Caribe, e os bastidores da atração se achavam atulhados de objetos: baús de tesouro, espadas e timões. Era terrível andar por ali. Piratas do Caribe fora a última atração pessoalmente supervisada por Walt, e eu sempre a considerara sagrada. Mas Debra havia construído uma simulação dos Piratas em Pequim baseada em Chend I Sao, a rainha pirata chinesa do século XIX, atração que fora considerada o motivo pelo qual o Parque havia saído da obscuridade e da ruína. A mesma atração, na Florida, iria incorporar os melhores aspectos de sua prima na China – as simulações de Inteligência Artificial que mantinham comunicação entre si e com os visitantes, cumprimentando-os pelo nome cada vez que andassem pela atração, contando histórias, apropriadas a cada idade diferente, de piratas dos sete-mares; a espetacular perspectiva aérea da necrópole aquática com restos de naufrágios apodrecidos no fundo do mar; os ruídos e movimentos durante uma simulação de tempestade de tirar o fôlego – mas com motivos ocidentais: o perfume de pimentas jamaicanas no ar; sotaques afro-caribenhos fluidos; e lutas de espada coreografadas à moda dos piratas que singravam os mares azuis do Novo Mundo. Simulações idênticas ficariam estocadas no espaço atualmente ocupado pelos vultosos cenários e aparatos da atração, quintuplicando a capacidade de visitas e cortando pela metade o tempo de carregamento da atração.

“Então, o que ela está aprontando?”

Lil saiu das entranhas mecânicas do robô e fez uma cômica careta de preocupação. “Debra está recondicionando os Piratas – e está fazendo um trabalho incrível. Estão à frente do cronograma, os usuários da net não falam sobre outra coisa, os fãs estão se derretendo.” A expressão cômica desapareceu, dando lugar a uma preocupação genuína.

Ela se virou e fechou o Abraham Lincoln, depois “atirou” nele com os dedos. Tudo em ordem, o robô repassou seu discurso, silencioso a não ser pelos ruídos das engrenagens automáticas. Lil girou botões imaginários e a trilha sonora do robô surgiu em volume baixo. “Nem mesmo todos os exércitos da Europa, Ásia e África combinados conseguiriam, à força, abrir caminho nas Montanhas Blue Ridge, ou secar o Rio Ohio. Se o que queremos é a destruição, então é nosso dever fazer com que aconteça – e com que termine.” Ela novamente girou os botões invisíveis e o robô voltou ao silêncio.

“Você é quem manda, Sr. Presidente,” disse ela, e atirou com os dedos mais uma vez, desligando-o. Lil curvou-se e ajeitou a réplica costurada a mão do casaco do robô, depois deu corda no relógio e colocou-o dentro de um dos bolsos.

Coloquei meu braço ao redor de seus ombros. “Você está fazendo o possível – está fazendo um ótimo trabalho,” eu disse. Eu falara como um típico figurante, dando voz a afirmações insossas. Ao ouvir as palavras, senti-me constrangido. Apertei-a em um longo abraço e tentei achar um discurso que passasse segurança. Sem conseguir, segurei-a no abraço por mais alguns instantes, depois a soltei.

Ela me olhou de soslaio e balançou a cabeça. “Tudo vai ficar bem, claro,” disse ela. “Quero dizer, o pior que pode acontecer é Debra fazer um trabalho sensacional, e as coisas ficarão melhor do que são atualmente. Não é tão ruim assim.” 

Era uma posição radicalmente diferente da que ela tinha quando conversáramos pela última vez sobre o assunto, mas não se consegue viver mais de um século sem aprender o momento certo para corrigir aquele tipo de afirmação.

Minha cóclea deu meio-dia e o HUD apareceu, me avisando que chegara a hora de fazer meu backup semanal. Lil manobrava o Ben Franklin para fora do seu nicho. Acenei, mas ela estava de costas, e caminhei até um terminal uplink . Quando me aproximei o suficiente para conseguir a transferência segura de banda-larga, me preparei para o backup . Minha cóclea tocou de novo e atendi a chamada.

“Sim,” sub-vocalizei, impacientemente. Eu odiava ser distraído durante um backup – um de meus medos corriqueiros era de que eu esqueceria de fazer o backup e ficaria vulnerável por uma semana inteira até o próximo agendamento. Quando era adolescente, perdi o hábito de ter hábitos, deixando que as máquinas me lembrassem do que fosse preciso.

 “É o Dan.” Ouvi, ao fundo, os vários sons do Parque – risadas infantis, discursos gravados dos robôs de animação, o tropel de milhares de pés. “Pode me encontrar na Sala Tiki? É muito importante.”

“Pode ser daqui a quinze minutos?” perguntei.

“Claro... vejo você então.” 

Desliguei e iniciei o backup . Uma barra de informações apareceu no HUD, quantificando as partes puramente digitais da minha memória. Depois passou para a memória orgânica. Meus olhos se viraram nas órbitas e minha vida passou diante dos meus olhos.

A Sociedade Bitchun tem muita experiência com restaurações de backups – na era da cura para a morte, o povo vive de modo meio desregrado. Algumas pessoas trocam de corpo mais de vinte vezes por ano.

Eu, não. Odeio o processo. Não a ponto de não fazê-lo. Todos os que se opunham à troca de corpos... bem, eles morreram uma geração atrás. A Sociedade Bitchun não precisou converter seus opositores, apenas esperou que se fossem.

Morri pela primeira vez pouco depois do meu sexagésimo aniversário. Estava mergulhando em Playa Coral, perto de Veradero, Cuba. Não me lembro do que aconteceu, claro, mas eu já mergulhara várias vezes naquele mesmo local e depois li os diários de mergulhos dos meus companheiros, portanto pude reconstruir os eventos.

Eu estava me arrastando pelas cavernas de lagostas, com um cilindro e uma máscara emprestados. Também havia emprestado uma roupa de mergulho, mas não a estava usando – mas a água salgada a temperatura corporal estava ótima, e eu odeio erguer barreiras entre ela e minha pele. As cavernas, feitas de rocha e coral, eram tortuosas como intestinos. Por trás de cada buraco, depois de cada esquina, havia uma nova esfera crua de beleza alienígena. Lagostas gigantescas passeavam pelas paredes e cavernas. Cardumes de peixes brilhantes como jóias disparavam e executavam manobras de tirar o fôlego quando eu perturbava sua atarefada existência. Consigo pensar melhor quando estou submerso, e geralmente fico absorto em perigosos devaneios a uma profundidade considerável. Normalmente, meus companheiros de mergulho não deixam com que me machuque, mas daquela vez eu me afastara deles, entrando em uma pequena caverna.

 E fiquei preso.

Meus companheiros estavam atrás de mim, por isso bati com o cabo da faca no cilindro até que um deles colocou a mão em meu ombro. Eles perceberam o que estava acontecendo, e tentaram me soltar, mas o cilindro e o colete de controle de profundidade estavam firmemente presos. Os outros trocaram sinais com as mãos, silenciosamente discutindo o melhor jeito de me soltar. De repente, eu estava me debatendo, e então desapareci dentro da caverna, sem o colete e sem o cilindro. Aparentemente, eu tentara cortar as alças do colete, mas só consegui cortar o tubo do regulador. Depois de aspirar uma golfada de água salgada, consegui me debater até dentro da caverna, caindo sobre uma enorme coleção de corais-de-fogo. Aspirei outra golfada de água e bati os pés loucamente em direção a uma abertura no teto da caverna, onde meus companheiros me pegaram pouco depois, afogado, cianótico a não ser pelos adesivos de corais grudados em mim.

Naquele tempo, fazer um backup era muito mais complicado; o procedimento levava a maior parte de um dia, e precisava ser feito em uma clínica especializada. Por sorte, eu havia feito um backup logo antes de viajar para Cuba, poucas semanas antes. Não fosse por este último, meu backup mais recente era de três anos antes, quando terminei minha terceira sinfonia.

Minha recuperação da troca de corpos aconteceu no Hospital Geral de Toronto. Até onde eu sabia, eu me deitara na clínica para fazer o backup em um momento, e no segundo seguinte me levantara, novo. Precisei de quase um ano para superar o sentimento de que o resto do mundo estava tirando sarro da minha cara, para perceber que o cadáver afogado que eu vira era realmente eu mesmo. Na minha cabeça, o renascimento era tão figurativo quanto literal – o tempo que eu havia “perdido” era grande o bastante para fazer com que eu não me sentisse à vontade para socializar com meus amigos pré-morte.

Contei esta história a Dan durante nossa primeira amizade, e ele imediatamente percebeu que eu tinha ido ao Disney World para passar uma semana tentando entender meus sentimentos, reinventando a mim mesmo, mudando-me para o espaço e me casando com uma moça meio louca. Ele achou muito curioso o fato de que, sempre que eu trocava de corpo, começava no Disney World. Quando eu disse a ele que um dia ainda acabaria morando lá, ele me perguntou se isto significaria que eu teria parado de me reinventar. Às vezes, quando eu passava as mãos pelos macios cachos ruivos de Lil, eu pensava no que ele havia me dito e ficava contente e maravilhado com a capacidade de premonição do meu amigo Dan.

Quando morri, na vez seguinte, a tecnologia já era bem mais avançada. Aos setenta e três anos, sofri um grande derrame, desabando sobre o gelo durante um jogo de hóquei. Quando conseguiram cortar meu capacete, os hematomas tinham transformado meu cérebro em uma massa sangrenta. Meus backups estavam atrasados, e perdi quase um ano. Mas me acordaram gentilmente, com um resumo gerado por computador dos fatos ocorridos durante o intervalo perdido, e um psicólogo conversava comigo uma vez por dia, até que me senti novamente à vontade em minha pele. Novamente, comecei minha vida do zero, e me encontrei no Disney World, metodicamente deixando de lado as relações que eu construíra e indo viver em Boston, perto do oceano, trabalhando com metais pesados, um projeto que me levou, eventualmente, a apresentar a tese em Química na Universidade de Toronto.

Depois que me acertaram um tiro na Sala Tiki, tive a oportunidade de entender melhor os grandes saltos temporais que experimentei durante as trocas de corpos dos últimos dez anos. Acordei em minha própria cama, instantaneamente consciente dos eventos que resultaram em minha terceira morte, observados a partir de pontos de vista de terceiros: os arquivos de vídeo do pessoal de segurança da Terra da Aventura, memórias sintetizadas extraídas dos arquivos de backup de Dan, e uma renderização aérea dos acontecimentos gerada por computador. Acordei me sentindo incrivelmente calmo e alegre, sabendo que aquilo se devia a certos ajustes de neurotransmissores temporários colocados em prática quando eu trocara de corpo.

Dan e Lil estavam ao lado do meu leito. O rosto sorridente e cansado de Lil estava cheio de fios de cabelo que haviam se soltado do seu rabo-de-cavalo. Ela pegou minha mão e beijou meus dedos macios. Dan sorriu para mim, e fui invadido pelo sentimento caloroso, confortável, de estar cercado por pessoas que realmente me amavam. Tentei encontrar palavras apropriadas à cena, tentei improvisar, abri a boca e disse, para minha surpresa, “Preciso fazer xixi.”

Dan e Lil sorriram um para o outro. Saltei da cama, pelado, e corri até o banheiro. Meus músculos estavam maravilhosamente flexíveis, com uma nova elasticidade. Depois de dar a descarga, me dobrei ao meio e segurei meus tornozelos, depois encostei a cabeça no piso do banheiro, sentindo a incrível flexibilidade das minhas costas e nádegas. Uma cicatriz que eu tinha no joelho desaparecera, assim como muitas marcas de idade que cruzavam meus dedos. Quando me olhei no espelho, vi que o nariz e os lóbulos das orelhas estavam menores e mais afilados. Os pés-de-galinha e as rugas na testa haviam desaparecido. Estava com a barba por fazer e com pelos curtos por todo o corpo – cabeça, púbis, braços, pernas. Passei as mãos pelo corpo e ri ante àquela sensação de novidade. Fiquei brevemente tentado a me depilar novamente, só para manter a sensação de novidade para sempre, mas as cargas de neurotransmissores estavam perdendo a força e uma sensação de urgência, causada por meu assassinato, começava a tomar conta de mim.

Enrolei uma toalha na cintura e voltei ao quarto. Os cheiros de desinfetante, flores e corpo novo estavam frescos no meu nariz, voláteis como cânfora. Dan e Lil se levantaram quando eu entrei no quarto e me ajudaram a voltar para a cama. “Que merda ,” eu disse.

Eu tinha ido diretamente do uplink para o corredor de serviço – passando, no caminho, por três câmeras de segurança, uma no uplink , outra no corredor e a terceira na saída do túnel entre a Praça da Liberdade e a Terra da Aventura. Eu parecia preocupado e um pouco entristecido enquanto saía pela porta, e comecei a abrir caminho pela multidão arrastando os pés rapidamente, hábito que eu desenvolvera enquanto trabalhava na tese sobre controle de populações. Andei apressadamente por entre as pessoas que procuravam algo para comer – era hora do almoço – em direção à Sala Tiki, cujo telhado era uma forração de folhas de alumínio cortadas e pintadas para que se parecessem com longas gramíneas.

As imagens seguintes estavam embaçadas, a partir do ponto de vista de Dan: eu me aproximo dele, passando perto de um grupo de garotas adolescentes com cotovelos e joelhos adicionais, usando capas de climatização controlada e gorros cobertos com a logomarca do Epcot Center. Uma delas está usando um capacete de esponja comprado na loja Mercadores da Selva, ponto final da atração Cruzeiro na Selva. O olhar de Dan é desviado para a entrada da Sala Tiki, onde há uma pequena fila de idosos, depois volta justamente quando a garota com o capacete de esponja saca uma pistola orgânica cheia de estilo, parecida com um pênis, com um rabo que se prende ao redor do braço dela. De maneira casual, sorrindo, ela ergue o braço e gesticula com a pistola, exatamente como faz Lil com seu dedo quando está puxando algum arquivo, e a pistola dá um salto à frente. O olhar de Dan volta para mim. Estou caindo para trás, meus pulmões explodindo para fora do peito como se fossem um par de asas, pedaços da coluna vertebral e vísceras jorrando nos visitantes próximos a mim. Um pedaço do meu crachá, que se transformara em estilhaços, atinge Dan na cabeça, fazendo com que ele pisque. Quando abre os olhos novamente, o grupo de adolescentes ainda está lá, mas a garota com a pistola desapareceu há muito tempo.

As imagens da vista aérea são muito menos confusas. Todos, exceto eu, Dan e a garota, aparecem em tons de cinza. Estamos destacados em amarelo, e nos movemos em câmera lenta. Eu saio do túnel e a garota anda da Árvore da Família Robinson em direção ao seu grupo de amigas. Dan começa a andar na minha direção. A garota ergue o braço e dispara a pistola. A bala, que tem inteligência artificial e é projetada para reagir à minha química corporal, traça uma trajetória rente ao chão, passando entre os pés da multidão, viajando pouco abaixo da velocidade do som. Quando chega bem perto de mim, a bala sobe vertiginosamente, me atingindo na coluna, e é detonada assim que entra em minha cavidade peitoral.

A essa altura, a garota já se distanciou, andando em direção à saída da Terra da Aventura / Rua Principal. As imagens da vista aérea correm mais um pouco, seguindo a garota enquanto ela se mistura à multidão, desviando e costurando por entre as pessoas até chegar à passarela do Castelo da Bela Adormecida. Ela desaparece, depois reaparece, quarenta minutos mais tarde, na Terra do Amanhã, perto do complexo da Montanha Russa Espacial, e finalmente desaparece de novo.

“Alguém identificou a garota?” perguntei, assim que terminei de ver as imagens. Minha raiva começava a se transformar em algo mais forte. Meus novos punhos se fecharam pela primeira vez, as palmas das mãos ainda macias e os dedos ainda sem calos.

Dan negou com a cabeça. “As garotas daquele grupo nunca a tinham visto. Ela usava um dos rostos das Sete Irmãs – Hope.” As Sete Irmãs eram uma conhecida marca de design facial. Uma em cada duas adolescentes usava um de seus rostos.

“E na Mercadores da Selva?” perguntei. “Alguém tem o recibo da compra do capacete?”

Lil franziu o cenho. “Verificamos as compras dos últimos seis meses na Mercadores da Selva: apenas três compradores têm a mesma idade aparente da garota; todos têm álibis. É mais provável que ela tenha roubado o capacete.”

“Por quê?” perguntei enfim. Na minha cabeça eu via meus pulmões explodindo no peito como asas, como águas-vivas, as vértebras estilhaçadas. Eu via o sorriso da garota, um sorriso sarcástico, quase sexual, enquanto ela apertava o gatilho.

“Não foi aleatório,” disse Lil. “A bala estava certamente preparada para o seu corpo – o que significa que ela, em alguma ocasião, se aproximara de você.”

Claro – e aquilo significava que ela tinha ido ao Disney World nos últimos dez anos. O que facilitava as coisas, sem dúvida.

“E depois que ela saiu da Terra do Amanhã?” perguntei.

“Não sabemos o que aconteceu com ela,” disse Lil. “As câmeras apresentaram defeitos. Ela sumiu e não apareceu mais.” Lil parecia estar com muita raiva – ela tomava defeitos nos equipamentos do Reino Encantado como falhas suas.

“Quem faria uma coisa dessas?” perguntei, odiando o tom de auto-comiseração em minha voz. Tinha sido meu primeiro assassinato, mas eu não precisava me debulhar em lágrimas por causa daquilo.

O olhar de Dan se perdeu na distância. “Às vezes, as pessoas fazem coisas que, para elas, parecem totalmente justificáveis, mas que o resto do mundo nunca poderia entender. Já presenciei alguns assassinatos, mas, para mim, nunca fizeram sentido.” Ele coçou o queixo. “Às vezes, é melhor tentar entender o comportamento do que os motivos: quem poderia fazer algo assim?”

Claro. Tudo o que precisávamos fazer era investigar todos os psicopatas que haviam visitado o Reino Encantado nos últimos dez anos. O que diminuía consideravelmente o campo de amostras. Chamei um HUD e verifiquei quanto tempo se passara. Eu fora assassinado há quatro dias. Em pouco tempo eu teria um turno de trabalho nas catracas da Mansão Assombrada. Era agradável fazer aquele tipo de trabalho de tempos em tempos, para manter os pés no chão; ajudava a me lembrar o que era a realidade enquanto eu trabalhava sob o ar-condicionado das simulações de controle de populações.

Eu me levantei, fui até o armário e comecei a me vestir.

“O que você acha que está fazendo?” perguntou Lil, alarmada.

“Tenho um turno de trabalho, já estou atrasado.”

“Você não está em condições de trabalhar,” disse Lil, pegando-me pelo cotovelo. Sacudi o braço para me livrar dela.

“Estou ótimo – feito novo.” Dei um sorriso amarelo. “Não vou deixar esses cretinos acabarem com minha vida.”

Esses cretinos? , pensei – quando eu tinha decidido que havia mais de um? Mas sabia que era verdade. Não havia jeito de aquilo ter sido planejado por apenas uma pessoa: tudo havia sido executado muito precisamente, após muito ensaio.

Dan bloqueou a porta do quarto. “Espere um pouco,” disse ele. “Você precisa descansar.”

Olhei-o severamente. “Isso sou eu quem decide,” disse. Ele deu um passo para o lado.

“Vou com você, então,” disse ele. “Por precaução.”

Puxei minha contagem Whuffie. Tinha subido um pouco – Whuffie gerado por simpatia – mas naquele momento estava caindo: Dan e Lil irradiavam desaprovação. Que se lascassem.

Entrei em meu carrinho e Dan se atrapalhou com a porta do passageiro enquanto eu engatava a marcha e saía do estacionamento.

“Tem certeza de que está tudo bem?” perguntou Dan enquanto eu quase capotava o carrinho ao dar a volta na rotatória.

“E por que não estaria?” perguntei. “Estou praticamente novo.”

“Que estranha escolha de palavras,” disse ele. “Algumas pessoas diriam que você está novo.”

Suspirei. “Não me venha com essa discussão de novo,” disse. “Estou me sentindo como eu mesmo, e ninguém mais pode dizer a mesma coisa. Quem se importa se eu troquei de corpo?”

“O que quero dizer é que há uma diferença entre você e uma cópia exata sua, não há?”

Eu sabia o que ele pretendia, distraindo-me com uma de nossas antigas discussões, mas não pude resistir e, enquanto apresentava meus argumentos, na verdade também consegui me acalmar um pouco. Dan era o típico amigo que lhe conhecia melhor do que você mesmo. “O que você está dizendo é que, se fosse destruído e posteriormente recriado, átomo por átomo, não seria você mesmo?”

“Apenas para continuar esta discussão, é isso mesmo o que estou dizendo. Ser destruído e recriado é diferente de nunca ter sido destruído, certo?”

“É melhor dar uma espanada nos seus conhecimentos de mecânica quântica, coleguinha. Você está continuamente sendo destruído e recriado um trilhão de vezes por segundo.”

“Apenas num nível muito pequeno...”

“Qual é a diferença?”

“Está bem, ponto para você. Mas esse corpo não é realmente uma cópia átomo-por-átomo. É um clone, com um cérebro copiado – não é o mesmo que destruição quântica.”

“Bela coisa a se dizer para alguém que acaba de ser assassinado, amigão. Tem algo contra clones?”

E continuamos por aí.

 

***

 

Os figurantes da Mansão se mostraram asquerosamente alegres e solícitos. Cada um deles fez questão de se aproximar e tocar o ombro duro e engomado da minha fantasia de mordomo, para que eu soubesse que, se houvesse qualquer coisa que pudessem fazer por mim... Retribuí a todos um sorriso engessado e tentei me concentrar nos visitantes, o modo como ficavam na fila, quando chegavam, como se dispersavam pelo portão. Dan mantinha-se próximo, ocasionalmente levando meus recados para os outros figurantes e fazendo a visita pela atração, que durava oito minutos e vinte e dois segundos.

Ele estava ao meu lado quando chegou o intervalo. Troquei de roupa e andei pelas ruas de pedra, e quando virei a esquina do Salão dos Presidentes notei que havia algo diferente na área das filas. Dan resmungou. “Já se mudaram,” disse ele.

Olhei mais de perto. As catracas estavam bloqueadas por uma placa: Mickey usando uma peruca à la Ben Franklin e óculos bifocais, segurando uma espátula. “Desculpem o transtorno!” dizia a placa. “Estamos renovando para melhor servi-lo!”

Percebi um dos companheiros de Debra de pé atrás da placa, um sorriso de satisfação no rosto. Ele começara a vida como um chinês atarracado, mas seus ossos haviam sido alongados e os malares colocados em posição superior, fazendo com que lembrasse um elfo. Olhei o sorriso do garoto e entendi – Debra havia colocado uma de suas garras na Praça da Liberdade.

“Planos para um novo Salão foram apresentados ao comitê volante uma hora após seu assassinato. O comitê adorou o projeto; a net também. Prometeram não encostar um dedo na Mansão.”

“Você não me disse nada sobre isso,” eu disse, irado.

“Pensamos que você chegaria a conclusões apressadas. Tudo aconteceu em péssima hora, mas não há indícios de que eles tenham contratado a atiradora. Todos têm um álibi; além disso, todos ofereceram seus backups para análise.”

“Certo,” eu disse. “Claro. Por acaso eles tinham um projeto para um novo Salão dos Presidentes. E por acaso eles o apresentaram logo depois que tomei um tiro, quando todos os nossos cooperados estavam preocupados comigo. É tudo uma grande coincidência.”

Dan sacudiu a cabeça. “Não somos idiotas, Jules. Ninguém pensa que é uma coincidência. Debra é o tipo de pessoa que mantém vários projetos na manga, por precaução. Mas isso faz dela uma oportunista bem preparada, não uma assassina”.

 Senti-me enjoado e exausto. Minha experiência como figurante fez com que eu procurasse um corredor de serviço antes de arriar, de cabeça baixa, contra uma parede. Sentia por todo o corpo o peso da derrota.

Dan ajoelhou-se ao meu lado. Olhei para ele. Ele sorria, irônico. “Vamos presumir,” disse, “só por um instante, que Debra seja realmente a responsável, que ela armou para você ser assassinado, para que pudesse conseguir o que queria.”

Sorri, apesar de me sentir muito mal. Era o ato da explicação, algo que fazia parte de seu antigo repertório de retórica. “Está bem, estamos presumindo.”

“Que motivo teria ela para: primeiro, matar você e não Lil ou um dos verdadeiros veteranos; segundo, correr atrás do Salão dos Presidentes e não da Ilha do Tom Sawyer ou até mesmo da Mansão; terceiro, completar a jogada com um movimento tão óbvio?”

“Está bem,” eu disse, me empolgando com o desafio. “Primeiro: sou importante o suficiente para fazer falta, mas não para demandar uma investigação completa. Segundo: a Ilha do Tom Sawyer é visível demais, não se pode reformá-la sem que as pessoas vejam as nuvens de poeira do outro lado do rio. Terceiro: Debra passou uma década em Pequim, e lá sutileza não era um requisito importante.”

“É claro,” disse Dan, “é claro.” Depois apresentou uma enxurrada de contra-argumentos e enquanto eu pensava em uma resposta, ajudou-me a levantar e me conduziu até o carrinho, falando sem parar, até que, quando percebi que não estávamos mais no Parque, eu estava em casa, dormindo.

 

***

 

Os robôs animados do Salão dos Presidentes foram tirados de funcionamento durante as reformas, e Lil tinha mais tempo livre do que estava acostumada. Ela ficava comigo em nosso pequeno chalé, olhando para as paredes, a respiração acelerada em meio ao ar claustrofóbico e superaquecido da Flórida. Eu abria minhas notas sobre o gerenciamento das filas da Mansão, e as observava sem muita finalidade. Às vezes Lil compartilhava meu HUD para que observasse em que eu estava trabalhando, e fazia observações baseadas em sua vasta experiência.

Aumentar a taxa de visitantes sem que a atração perdesse seu encanto era um processo delicado. Mas, para cada segundo que eu eliminasse da rota fila-saída, poderia colocar sessenta visitantes adicionais e cortar trinta segundos do tempo total de espera. E quanto mais visitantes conhecessem e gostassem da Mansão, maior seria a perda de contagem-Whuffie sofrida pelo pessoal de Debra se ela tentasse conseguir a administração da atração. Por isso, eu analisava minhas observações, e encontrei três segundos que poderiam ser eliminados da seqüência no cemitério se fizesse com que os carros do Trem da Perdição girassem à esquerda enquanto desciam, após passar pela janela do sótão: expandindo o campo de visão dos visitantes, eu poderia fazer com que absorvessem as cenas com mais rapidez.

Simulei as mudanças através de uma perspectiva aérea, depois as implementei após o fechamento do Parque e convidei os outros cooperados para que as testassem.

Vivíamos outra úmida noite de inverno, prematuramente escura. Os cooperados haviam chamado uma quantidade suficiente de amigos e familiares para que simulássemos um tempo de fila fora do horário de pico; todos suávamos, em pé, na área em frente à Mansão, esperando que as portas se abrissem, escutando o uivo dos lobos e vários ruídos assustadores vindos dos alto-falantes escondidos.

As portas se abriram, mostrando Lil usando um esfarrapado uniforme de serviçal, as linhas dos olhos realçadas com lápis preto, a pele de uma palidez cadavérica embranquecida pela maquiagem. Ela nos olhou friamente, e então recitou: “Mestre Gracey precisa de mais corpos.”

Enquanto enchíamos o frio e melancólico saguão de entrada, Lil achou espaço para carinhosamente apertar minha bunda. Eu meu virei para retribuir o favor, e vi o élfico comparsa de Debra espiando por sobre o ombro de Lil. Meu sorriso desapareceu.

O olhar do rapaz encontrou o meu, e eu vi algo naqueles olhos – uma mistura de crueldade e preocupação que não pude compreender. Ele imediatamente desviou o olhar. Eu tinha certeza, é claro, de que Debra colocaria espiões em meio ao pessoal do teste, mas, tendo visto o elfo, resolvi que aquela volta seria a melhor que eu poderia proporcionar.

Esse negócio de melhorar atrações que já existem é muito sutil. Lil fizera deslizar o painel que dava acesso ao corredor número dois, o último a ser reformado. Quando as pessoas entraram no corredor, tentei, através de linguagem corporal, fazer com que sua atenção fosse direcionada para os novos pontos de interesse. Quando a trilha sonora remasterizada soou por detrás das gárgulas iluminadas, colocadas nos cantos do salão octogonal, inclinei levemente o corpo na direção do sorround-sound que se movia pelas caixas. Um segundo antes que as luzes se apagassem, olhei ostensivamente para o forro; as pessoas me imitaram e puderam ver o cadáver iluminado por uma luz-negra, que caía do teto escuro como breu, ser sacudido pelo nó em seu pescoço.

Entramos na segunda área de filas, onde embarcamos no Trem da Perdição. Houve um murmurinho de conversas maravilhadas enquanto caminhávamos pela esteira rolante. Subi no Trem um instante depois, alguém deslizou para o assentou ao meu lado. Era o elfo.

Ele fez questão de não me olhar diretamente, mas senti seus olhares dissimulados enquanto passávamos pelo candelabro flutuante e entrávamos no corredor onde os retratos nos observavam. Dois anos antes, eu tornara essa seqüência mais rápida e adicionara giros aleatórios aos carrinhos do Trem, cortando 25 segundos do tempo, fazendo com que o total de pessoas a cada hora passasse de 2365 para 2600. Era a prova de que eu precisava para implementar as outras teorias de redução de tempo desde então. O violento sacudir do carrinho fez com que o elfo e eu inadvertidamente nos tocássemos, e quando encostei em sua mão, ao procurar a barra de segurança, senti que estava fria e suada.

Ele estava nervoso! Ele estava nervoso. Por que ele estaria nervoso? Fora eu quem tinha sido assassinado – talvez ele estivesse nervoso porque teria de terminar o serviço. Dei meus próprios olhares dissimulados em sua direção, tentando achar volumes suspeitos em suas roupas justas, mas o interior do Trem da Perdição era escuro demais para isso. Dan estava no carrinho atrás de nós, com um dos figurantes regulares da Mansão. Chamei sua cóclea e sub-vocalizei: “Prepare-se para saltar ao meu sinal.” Se alguém deixasse o carrinho durante a atração, interromperia um feixe de luz infra-vermelha e faria com que o Trem parasse. Eu sabia que Dan confiaria em mim sem maiores explicações, o que significava que eu poderia manter o capanga de Debra sob rédeas curtas.

Passamos da sala dos espelhos para a sala das portas, onde mãos monstruosas saíam pelos vãos, lutando contra as dobradiças, em meio às gravações de rosnados e de algo batendo com força. Pensei sobre o assunto – se quisesse matar alguém na Mansão, qual seria o melhor lugar para fazê-lo? A escadaria do sótão – a seqüência seguinte – parecia a melhor aposta. Uma fria revelação me assaltou. O elfo me mataria na penumbra da escadaria, jogaria meu corpo para fora do Trem na curva do cemitério e ponto final. Seria ele capaz de fazê-lo se eu o estivesse encarando? O rapaz parecia terrivelmente nervoso. Girei em meu assento e o olhei diretamente.

Ele esboçou um sorriso e assentiu em forma de cumprimento. Continuei encarando-o, os punhos cerrados, pronto para o que desse e viesse. Descemos pela escadaria, o carrinho com a boca para cima, ouvindo o clamor de vozes vindas do cemitério e o crocitar do corvo de olhos vermelhos. Espiei com o canto dos olhos o robô de animação do coveiro que tremia e me assustei. Soltei um grito sub-vocal e fui jogado para a frente quando a viagem do Trem foi interrompida.

“Jules,” soou a voz de Dan na minha cóclea. “Está tudo bem?”

Ele ouvira meu involuntário grito de surpresa e saltara do Trem, interrompendo a atração. O elfo me olhava com uma mistura de surpresa e pena.

“Está tudo bem, tudo bem. Alarme falso.” Chamei Lil e sub-vocalizei para que ela reiniciasse a atração o mais rápido possível, dizendo que estava tudo bem.

Deixei minhas mãos na barra de segurança até o final da volta, os olhos fixos à frente, propositadamente ignorando o elfo. Observei o cronômetro que deixara correndo. A demonstração tinha sido um desastre. Em vez de cortar três segundos, eu adicionara trinta. Tive vontade de chorar.

 

***

 

Desci do Trem e caminhei rapidamente para a saída, usando as cercas demarcatórias das filas como muletas, olhando, sem enxergar, para o pequeno cemitério de animais ao lado da Mansão. Minha cabeça rodava: eu estava descontrolado, assustando-me por qualquer coisa. Estava assombrado.

E não tinha razão para estar. É claro, eu tinha sido assassinado, mas o que eu havia perdido com isso? Alguns dias de “inconsciência” enquanto transferiam meu backup para meu novo corpo, um abençoado intervalo em minha memória, desde que eu saíra do terminal de backup até o momento da minha morte. Eu não era um daqueles malucos que levam a morte a sério . Não era como se me tivessem feito algo permanente .

Por outro lado, eu tinha feito algo permanente: tinha cavado a sepultura de Lil, colocado a cooperativa em perigo e, o pior de tudo, a Mansão também. Eu agira como um idiota. Tinha provado do meu próprio veneno, e o gosto era bastante amargo.

Senti alguém atrás de mim, pensei que era Lil vindo me perguntar o que acontecera na Mansão, e quando me virei, com um sorriso maroto, dei de cara com o elfo.

Ele esticou a mão em minha direção e falou no tom simplório e sem sotaque de alguém que está usando um módulo-linguagem. “Olá. Não fomos apresentados, mas eu gostaria de lhe dizer que admiro seu trabalho. Meu nome é Tim Fung.”

Apertei sua mão, que ainda estava fria e particularmente suarenta no calor da noite da Flórida. “Julius,” eu disse, fazendo com que parecesse um latido e assustando a mim mesmo. Cuidado , pensei, não é preciso ser hostil . “É muita gentileza sua. Também gostei do que fizeram nos Piratas.”

Ele sorriu: um sorriso genuíno, constrangido, como se ele tivesse sido elogiado por um herói de infância. “Sério? Também acho que ficou bom – quando se anda pela segunda vez é possível refinar a experiência, realmente esclarecer o que se viu. Em Pequim... bem, era excitante, mas tudo muito corrido, sabe? Quero dizer, era uma luta. Todo dia chegava uma nova turma de invasores querendo acabar com o Parque. Debra fazia com que eu levasse as crianças de cavalinho, só para manter nossos Whuffies lá em cima enquanto ela os despejava. Seria bom ter tido a oportunidade de refinar os conceitos ou revisá-los sem que as atrações estivessem em funcionamento.”

Eu, é claro, sabia de tudo aquilo – Pequim tinha sido uma verdadeira batalha para as cooperativas que o construíram. Muitos dos cooperados haviam sido repetidamente assassinados. Durante os testes em uma das atrações, a própria Debra tinha sido morta todos os dias por uma semana, e re-instalada em uma série de corpos preparados de antemão. Era mais rápido do que revisar as simulações por computador. Debra tinha a reputação de ser uma pessoa dinâmica.

“Estou começando a entender o que é trabalhar sob pressão,” eu disse, e olhei de maneira significativa para a Mansão. Fiquei feliz em vê-lo, primeiro, constrangido, depois horrorizado.

Nunca encostaríamos um dedo na Mansão,” disse ele. “Está perfeita !”

Dan e Lil apareceram enquanto eu preparava uma resposta. Ambos pareciam preocupados – e agora, pensando bem, ambos pareciam incrivelmente preocupados comigo desde o dia em que eu revivera.

Dan estava andando de modo estranho, hesitante, como buscasse apoio em Lil. Pareciam um casal. Uma pontada irracional de ciúmes passou por mim. Minhas emoções estavam uma bagunça. Mesmo assim, tomei a mão de Lil – grande e marcada – nas minhas quando ela se aproximou, e a abracei protetoramente. Ela trocara o uniforme de serviçal por roupas comuns: um macacão cujo tecido de micropore respirava junto com ela.

“Lil, Dan, gostaria de lhes apresentar Tim Fung. Ele estava me contando as histórias da guerra que foi o projeto dos Piratas em Pequim.”

Lil acenou e Dan apertou gravemente a mão do rapaz. “Foi um trabalho e tanto,” disse Dan.

Ocorreu-me ligar os monitores de Whuffie. Era, normalmente, uma reação automática quando conhecíamos alguém, mas eu ainda estava desorientado. Puxei a contagem do elfo. Ele tinha muitos Whuffies de esquerda: respeito adquirido de pessoas que compartilhavam pouquíssimas das minhas opiniões. Eu já esperava por aquilo. O que não esperava era que sua contagem Whuffie ponderada, a que adquiria credibilidade adicional das pessoas que eu respeitava, também era alta – mais alta do que a minha. Fiquei ainda mais decepcionado com meu comportamento errático. Ser respeitado pelo elfo – Tim , eu tinha de me acostumar a chamá-lo de Tim – teria um peso muito grande em todos os grupos importantes.

 A contagem de Dan estava subindo constantemente, mas seu perfil ainda não era dos melhores. Ele tinha conseguido uma boa porção de Whuffie de esquerda e eu, curioso, pesquisei retroativamente até o dia do meu assassinato, quando o pessoal de Debra o enchera de Whuffies pela maneira sensata e calma como ele havia tirado meu corpo do local, minimizando os distúrbios em frente aos amados Piratas do Caribe.

Meus pensamentos foram longe, eu estava entrando no mesmo estado de espírito meditativo que fizera com que eu fosse morto em Playa Coral, e saí do transe com um susto, percebendo que os outros três educadamente ignoravam minha viagem mental. Eu poderia ter acessado minha memória-imediata para pegar o fio da meada do que estava sendo conversado, mas isso teria apenas aumentado a pausa. Dane-se. “Bem, como vão as coisas no Salão dos Presidentes?” perguntei a Tim.

Lil me deu olhar que dizia para eu ter cuidado. Ela havia cedido o Salão para a cooperativa de Debra, já que era a única maneira de fazer com que os todo-poderosos Whuffies ignorassem o que parecia ser um comportamento pueril. Agora, ela teria de manter a impressão de uma bem-intencionada cooperação – o que significava não cortar a onda de Debra, procurando motivos para desabonar seu trabalho.

Tim nos mostrou o mesmo meio-sorriso com que me cumprimentara. Em suas feições afiladas, parecia incrivelmente agradável. “Estamos fazendo um bom trabalho, eu acho. Debra corre atrás do Salão há anos, antes mesmo de ir para a China. Estamos substituindo tudo por uplinks de banda-larga de personificações animadas de cada um dos Presidentes: manchetes de jornais, discursos, biografias abreviadas, diários pessoais. Será como se cada Presidente estivesse dentro de você, tudo baixado em poucos segundos. Debra disse que seria como implantar os Presidentes em sua cabeça!” Seus olhos brilharam.

Tendo recentemente passado pela experiência de sofrer um re-implante cerebral, a descrição de Tim me lembrou de algo. Minha personalidade parecia estar meio solta na minha mente, como se não fosse do tamanho adequado. Fazia parecer perversamente interessante a idéia de ter 50 personificações animadas de Presidentes embutidas no meu cérebro.

“Uau,” eu disse. “Que loucura. E quanto ao projeto físico?” O Salão possuía uma calma dignidade patriótica copiada de centenas de edifícios dos antigos EUA. Mudá-la seria como redesenhar a bandeira norte-americana.

 ”Não é bem a minha área,” disse Tim. “Sou um programador. Mas eu poderia pedir a um projetista que baixasse alguns dos projetos para você, se quiser.”

“Seria ótimo,” disse Lil, pegando-me pelo cotovelo. “Acho que devemos ir para casa, agora.” Ela começou a me puxar. Dan pegou meu outro cotovelo. Atrás dele, o Liberty Belle reluzia como um bolo de casamento fantasmagórico.

“Que pena,” disse Tim. “Minha cooperativa vai virar a madrugada no novo Salão. Tenho certeza de que vocês gostariam de dar uma passada por lá.”

A idéia me pareceu ótima. Eu poderia entrar em território inimigo, sentar-me com eles, aprender seus segredos. “Seria fantástico !” eu disse, alto demais. Minha cabeça zumbia levemente. Lil tirou as mãos de mim.

“Mas temos que acordar cedo amanhã,” disse ela. “Você tem um turno às oito, e eu tenho de ir à cidade fazer compras.” Era mentira, mas era o jeito que ela tinha para me dizer que não achava aquela uma boa idéia. Mas minha fé era inabalável.

“Turno às oito? Sem problemas – estarei lá. Vou apenas tomar um banho no Contemporary de manhã e pegar o monotrilho de volta a tempo de me trocar. Certo?”

Dan tentou. “Mas, Jules, nós temos um jantar na Mesa Real da Cinderela, lembra? Fiz as reservas.”

“Ora, podemos jantar a qualquer hora,” eu disse. “Esta é uma oportunidade incrível.”

“Certamente,” disse Dan, desistindo. “Importa-se se eu for com você?”

Ele e Lil trocaram olhares cheios de significado, que interpretei como Se ele quer dar uma de maluco, um de nós deveria ficar a seu lado . Mas eu não me importava – eu ia enfrentar o leão em sua própria toca!

Tim aparentemente não entendeu nada do que estava acontecendo. “Combinado, então! Vamos lá.”

 

***

 

No caminho para o Salão, Dan chamou continuamente minha cóclea, e eu continuamente o mandei para a secretária eletrônica. Durante todo o trajeto, eu, Dan e Tim conversamos sobre amenidades. Eu estava determinado a me redimir do desastre ocorrido na demonstração na Mansão, queria fazer com que Tim passasse para o meu lado.

O pessoal de Debra estava sentado em poltronas formando um círculo no palco, os robôs animados dos presidentes arrumados em pilhas bem arranjadas nas laterais. Debra estava desabada sobre a poltrona que Lincoln usava, a cabeça preguiçosamente jogada de lado, as pernas estendidas à frente. Os cheiros de ozônio e limpeza, corriqueiros do Salão, ficavam em segundo plano em relação ao fedor de suor e óleo mecânico, cheiros de uma cooperativa virando a madrugada trabalhando. A parte de pesquisa e execução do Salão levara quinze anos para ser construída, e dois dias para ser desmantelada.

Debra nunca reconstruíra as feições, ainda usava o rosto com o qual nascera, embora tenha trocado de corpo inúmeras vezes após suas mortes. Era um rosto nobre, brando, comprido, com um nariz que dava ao conjunto uma aparência superior. Ela tinha, no mínimo, a mesma idade que eu, embora fosse apenas aparente-22. Eu tinha a impressão de que ela escolhera aquela idade porque aparentava infinitas reservas de energia.

Ela não se dignou a se levantar quando me aproximei, apenas me cumprimentou preguiçosamente com a cabeça. Os outros cooperados haviam se separado em pequenos grupos, debruçados sobre terminais. Todos tinham olheiras escuras e a aparência de fanáticos com o sono atrasado, até mesmo Debra, que conseguia parecer cansada e excitada ao mesmo tempo.

Você mandou me matar ? eu pensei, olhando para ela. Afinal, ela tinha sido morta dezenas, talvez centenas, de vezes. Morrer, para ela, talvez não tivesse muita importância.

“Olá,” eu disse, animado. “Tim ofereceu-se para nos mostrar a reforma! Você conhece Dan, não é?”

Debra o cumprimentou com a cabeça. “Oh, é claro. Dan e eu somos amigos, não é?”

Dan não mexeu um músculo em seu rosto de jogador de pôquer. “Olá, Debra,” disse ele. Dan havia passado bastante tempo com a cooperativa de Debra desde que Lil o informara sobre o perigo que a Mansão corria, tentando conseguir informações que pudéssemos usar a nosso favor. Eles sabiam qual era o jogo, lógico, mas Dan era uma pessoa tão simpática e trabalhadora que o toleravam. Mas parecia que ele violara uma regra ao me acompanhar até ali, como se a realidade de que ele fazia parte mais da cooperativa de Debra do que da nossa virasse mentira com a minha presença.

Tim disse, “Posso apresentar a demonstração a eles, Debra?”

Debra levantou uma sobrancelha, depois disse, “Claro, por que não? Vocês vão gostar.”

Tim nos levou aos bastidores, onde Lil e eu antigamente trabalhávamos nos robôs e namorávamos escondidos. Tudo havia sido desmontado, empacotado, empilhado. Eles não tinham perdido um minuto sequer – haviam acabado com uma atração que funcionara por mais de um século. A tela onde algumas partes da atração eram projetadas estava jogada no chão, suja, cheia de marcas de sapatos e óleo.

Tim me mostrou um terminal de backup ainda meio desmontado. Estava sem a cobertura, e um sem-número de teclados, mouses e luvas tinham sido jogados ao seu redor. Parecia um protótipo.

“Aqui está – nosso uplink . Por enquanto, ele está carregado com um aplicativo de demonstração: o velho discurso de Abe Lincoln, junto com uma montagem da guerra civil. Acesse o código dos visitantes e eu baixo o arquivo para você. É uma loucura.”

Puxei meu HUD e acessei o código dos visitantes. Tim apontou um dedo para o terminal e meu cérebro foi inundado com a essência de Lincoln: cada sutileza de seu discurso, os movimentos exaustivamente pesquisados, as verrugas, a barba e a cartola. Por um instante me senti como se eu fosse Lincoln, e depois passou. Mas ainda conseguia sentir o gosto de cobre das salvas de canhão e de tabaco mascado.

Quase caí de costas. Minha cabeça girava com as impressões sensitivas, ricas em detalhes. Soube na mesma hora que o Salão dos Presidentes de Debra seria um sucesso.

Dan também experimentou o aplicativo. Tim e eu o observamos enquanto sua expressão mudava da dúvida ao delírio. Tim me olhou cheio de expectativa.

“É realmente ótimo,” eu disse. “Ótimo mesmo, de verdade. Emocionante.”

Tim corou. “Obrigado! Eu programei as personificações – é a minha especialidade.”

Debra falou por detrás dele. Ela havia chegado de mansinho enquanto Dan experimentava o aplicativo. “Tive esse idéia em Pequim, na época em que eu morria muito. Ter as memórias re-implantadas é maravilhoso, é como estar exercitando o cérebro. Adoro a claridade sintética do processo.”

Tim fungou. “Não tem nada de sintético,” disse ele, virando-se para mim. “É agradável e tranqüilo, não é?”

Senti que ali havia uma grande divergência de idéias e estava pensando na resposta quando Debra disse: “Tim tenta fazer com que o processo seja cada vez mais baseado em impressões, menos artificial. Está errado, é claro. Não queremos simular a experiência de assistir ao espetáculo. Queremos transcendê-la .”

  Tim assentiu, relutante. “Transcendê-la, é claro. Mas o jeito de conseguir isso é tornar a experiência humana , profundamente baseada nas figuras dos presidentes. Direcionada para a empatia. Qual é o propósito de apenas jogar um monte de fatos crus no cérebro de alguém?”  

A noite que passei no Salão dos Presidentes me convenceu de três coisas:

1. O pessoal da cooperativa de Debra armou meu assassinato, e depois forjaram seus álibis.

2. Eles me matariam novamente, quando chegasse o momento de tomarem a Mansão.

3. Nossa única esperança de salvar a Mansão era um ataque de surpresa contra eles: teríamos que atacar de maneira dura, onde eles fossem mais vulneráveis.

Dan e eu havíamos passado oito horas no Salão dos Presidentes, observando a precisão milimétrica e natural com a qual a cooperativa de Debra trabalhava, fruto das adversidades que haviam enfrentado em Pequim. Debra passava de grupo em grupo, fazendo sugestões tanto com palavras quanto com linguagem corporal, deixando atrás de si um rastro de inspirada atividade.

Fora aquela precisão que me convencera do ponto número um. Uma cooperativa com aquele nível de concentração poderia levar a cabo qualquer cronograma. Cooperativa? Diabos, vamos chamá-los do que realmente eram: um exército.

O ponto número dois me veio à mente quando incorporei o Lincoln finalizado por Tim por volta das três da manhã, após intensa troca de idéias com Debra. O que faz uma atração ser inesquecível é que a segunda volta é ainda melhor do que a primeira, quando os detalhes e floreios criam um impacto em sua consciência. A Mansão era cheia de pequenas curiosidades e referências que se tornavam mais marcantes a cada volta.

 Tim mexia os pés nervosamente, inchado de um orgulho que ele mal podia conter, quando acessei o código público. Ele baixou o aplicativo para o meu arquivo público e eu, cautelosamente, o executei.

Meu Deus! Lincoln e salvas de canhões e discursos e plantações e mulas e sobrecasacas! Tudo aquilo passou por mim, me acertou no rosto, bateu pelo lado de dentro do meu crânio e ricocheteou. Da primeira vez, senti uma certa ordem, houve uma narrativa, mas aquilo, aquilo era personificação, uma massa de experiências únicas, que me preencheu. Entrei em pânico em certo momento, enquanto a essência do que era Lincoln pareceu ameaçar minha própria personalidade e, quando pensei que seria derrotado, ela retrocedeu, deixando em mim uma enchente de endorfinas e adrenalina que me fez ter vontade de sair pulando.

“Tim,” eu disse, sem fôlego. “Tim! Foi...” Palavras me faltaram. Queria abraçá-lo. Quantas coisas semelhantes poderíamos fazer na Mansão! Que elegância! Impressão direta de experiências, sem ter que recorrer aos estúpidos e cegos olhos; aos surdos e embotados ouvidos.

Tim abriu um largo sorriso de satisfação, e Debra acenou, solene, de seu trono. “Gostou?” perguntou Tim. Assenti, e cambaleei de volta até a cadeira onde Dan dormia, com a cabeça jogada para trás, roncando suavemente.

Aos poucos, a razão voltou a mim, e com ela veio a raiva. Como ousavam? Os maravilhosos avanços tecnológicos e a riqueza que haviam nos dado as atrações da Disney – atrações que haviam entretido o mundo por mais de dois séculos – jamais poderiam competir em igualdade de condições com o modo de trabalho daquela cooperativa.

Minhas mãos se transformaram em punhos fechados. Porra, será que não podiam ter feito aquilo em outro lugar? Será que, para colocar tudo aquilo em prática tinham que destruir algo que eu amava? Eles poderiam usar aquela tecnologia em qualquer lugar – poderiam distribuí-la on-line e as pessoas poderiam acessá-la a partir dos sofás de suas casas!

Mas nunca funcionaria. Ali, o velho sistema Whuffie se esbaldaria – eles tomariam o Disney World de assalto, uma única cooperativa onde antes havia trezentas, tranqüilamente operando um parque duas vezes maior que Manhattan.

Levantei-me e saí do Salão, em direção à Praça da Liberdade. Estava mais frio, embora a umidade continuasse a mesma; um frio molhado que me subia pelas costas e fazia com que minha respiração ficasse presa na garganta. Virei-me para olhar o Salão dos Presidentes, grave e sólido como sempre fora, desde antes de minha infância, um monumento aos Criadores que haviam antecipado e inspirado a Sociedade Bitchun.

Chamei a cóclea de Dan, ainda roncando no Salão, e o acordei. Ele resmungou algo incompreensível em meu ouvido.

“Foram eles – eles me mataram.” Agora, tinha certeza daquilo, e fiquei contente. Meu próximo passo tinha acabado de se tornar mais fácil.

“Oh, Deus. Eles não mataram você – ofereceram os backups para análise, lembra? Não poderiam tê-lo feito.”

“Mentira!” gritei na noite vazia. “Mentira! Foram eles sim, e foderam os backups de algum jeito. Só pode ser. Tudo parece natural demais, organizado demais. De que outro jeito teriam conseguido reformar o Salão em tão pouco tempo? Eles sabiam o que aconteceria, planejaram uma distração e atacaram. Não me diga que você acha que eles tinham todos esses projetos jogados por aí e os colocaram em prática quando a oportunidade surgiu.”

 Dan resmungou e eu ouvi suas articulações estalando. Devia estar se espreguiçando. O Parque respirava ao meu redor, os sons do pessoal da manutenção correndo levemente pela noite. “É isso o que realmente acredito. E você, obviamente, não. Não é a primeira vez que discordamos. E agora?”

“Agora, temos que salvar a Mansão,” eu disse. “Agora, temos que dar o troco.”

“Puta merda,” disse Dan.

Tenho que admitir, havia uma parte em mim que concordava.

 

***

 

A oportunidade que eu esperava apareceu mais tarde naquela semana. A cooperativa de Debra fazia propaganda, anunciando uma pré-estréia especial do novo Salão dos Presidentes para as outras cooperativas que trabalhavam no Parque. Era classicamente audacioso, fazer com que as pessoas influentes do Parque tivessem acesso à atração antes que ela estivesse totalmente pronta. Uma volta sem muitos problemas faria com que essas pessoas ficassem impressionadas o suficiente para garantir seu apoio enquanto a cooperativa terminasse a reforma; uma demonstração com falhas poderia colocar tudo a perder. Havia muita gente no Parque com uma ligação sentimental em relação ao Salão dos Presidentes e, fosse lá o que o pessoal de Debra tivesse feito com a atração, teria que corresponder aos seus anseios.

“Vou entrar em ação durante a demonstração,” contei a Dan enquanto pilotava o carrinho desde a minha casa até o estacionamento dos figurantes. Olhei disfarçadamente para medir sua reação. Ele estava com o rosto de jogador de pôquer.

“Não vou contar à Lil,” continuei. “É melhor que ela não saiba – negação plausível.”

“E eu?” disse ele. “Não preciso negar de maneira convincente?”

“Não,” eu disse. “Não precisa. Você é um forasteiro. Você pode alegar que estava trabalhando por conta própria – isolado.” Eu sabia que não era justo. Dan estava no Parque para aumentar sua contagem Whuffie, se fosse implicado em meus esquemas sujos teria que começar tudo de novo. Eu sabia que não era justo, mas não me importava. Sabia que estávamos lutando por nossa própria sobrevivência. “É o bem contra o mal, Dan. Você não quer se tornar uma pós-pessoa. Quer continuar humano. As atrações são humanas. Nós nos relacionamos com elas através de nossas próprias experiências. Estamos fisicamente dentro delas, conversando com elas através dos nossos sentidos. O que o pessoal de Debra está construindo... é uma merda puramente mental. Implantar pensamentos diretamente! Por Deus! Não é percepção, é lavagem cerebral! Você sabe disso.” Eu estava implorando, discutindo comigo mesmo tanto quanto com ele.

 Disfarcei outra olhada enquanto acelerava pelos caminhos escondidos da Disney, margeados por suarentos pinheiros da Flórida e imaculadas placas púrpuras. Dan parecia pensativo, assim como nos velhos tempos em Toronto. Parte da minha tensão se dissipou. Ele estava analisando o caso – eu conseguira fazê-lo pensar.

“Jules, essa não é a melhor idéia que você já teve.” Senti um aperto no peito, e ele me deu um tapinha no ombro. Ele sempre conseguia me deixar à vontade, mesmo quando me dizia que eu era um idiota. “Mesmo que Debra esteja por trás de seu assassinato – o que não é uma certeza, e nós dois sabemos disso... mesmo se for verdade, podemos fazer coisa melhor. Reformar a Mansão, competir com Debra no mesmo nível, isso é ser esperto. Dê tempo ao tempo e poderemos dar o troco nela, conseguir o Salão – até mesmo os Piratas, isso deixaria ela muito puta. Puxa, se pudermos provar que ela está por trás do assassinato, poderemos expulsá-la no instante seguinte. Sabotagem não vai te ajudar em nada. Você tem muitas outras opções.”

 “Mas nenhuma delas é rápida o suficiente, e nenhuma delas vai me deixar emocionalmente satisfeito. O que vou fazer é para quem tem coragem .”

Chegamos ao estacionamento, parei o carrinho em uma vaga e saímos antes de que ele tivesse a chance de abrir o compartimento de recarga. Ouvi Dan bater a porta atrás de mim e sabia que ele vinha logo atrás.

Andamos até o corredor de serviço em silêncio. Passei pelas câmeras, sabendo que minha imagem estava sendo gravada, minha presença notada. Eu escolhera o tempo da ação com muito cuidado: chegando ao meio-dia, eu estava mantendo o padrão tradicional de observar a dinâmica da população sob calor intenso. Eu fizera questão de visitar aquela área duas vezes na semana passada, naquele mesmo horário, e de passar no comissariado antes de voltar à superfície. O tempo decorrido entre chegar no estacionamento e aparecer na Mansão não seria discrepante.

Dan seguiu meus passos quando andei em direção ao comissariado, depois encostou-se na parede, no ponto-cego da câmera. Quando cheguei no Parque, no tempo em que comecei a andar com Lil, ela me mostrou o A-Vac, o velho sistema pneumático de coleta de lixo, desativado nos anos 20. As crianças que cresceram no Parque haviam sido notórias exploradoras dos tubos que ainda, quase imperceptivelmente, tinham o cheiro dos sacos de lixo que antigamente transitavam a 100 kph até o depósito nas cercanias da propriedade; mas, para um garoto corajoso e flexível, os tubos eram uma maravilhosa cidade subterrânea a ser explorada quando as ultra-conhecidas atrações do Parque perdiam seu brilho.

Sorri marotamente e abri a entrada de serviço. “Se não tivessem me matado e me forçado a trocar de corpo, eu provavelmente não teria a flexibilidade para entrar aqui,” sussurrei para Dan. “Irônico, não?”

Passei pela entrada sem esperar pela resposta, e comecei a me arrastar por sob o Salão dos Presidentes.

 

***

 

Meu plano cobria todos os detalhes possíveis, menos um, que me ocorreu apenas quarenta minutos depois que eu entrara no tubo pneumático, com os braços à frente e as pernas para trás, como um nadador.

Como eu alcançaria meus bolsos?

Mais especificamente, como eu tiraria a pistola FRAE do bolso traseiro da minha calça, já que eu não conseguia nem dobrar os cotovelos? A pistola FRAE era o ponto crucial do plano: um gerador de Freqüência de Radio de Alta Energia, com um feixe de foco direcional que atravessaria o piso do Salão dos Presidentes e fundiria ca